Hoje fui comer uma salada de frutas no restaurante do Cesumar. Ela vinha com leite condensado e cheia de chantily. Ao coloca-la (de forma nada sutil) sobre a mesa, metade do chantily caiu na mesa. Enquanto eu comia o resto da salada de frutas fui pegando e comendo o chantily caído com os dedos..

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

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Acho errado expôr as pessoas como farei agora. Mas é que preciso meique desabafar em algum canto.

Conheço uma miss. Sim, ela é miss. Modelo e tudo o mais. Cabelos lisos, loiros e brilhantes, olhos verdes, tudo no lugar, parece uma barbie. E pôs silicone nos seios.

Eu fiquei triste. Muito triste mesmo. Como pode, a pessoa que parece ter tudo, ser tudo (porque não mencionei, mas ela também é simpática, querida por todos e , com certeza, dinheiro é o que não falta), mas mesmo assim precisa se expôr a isso para se sentir bem consigo mesma, para se sentir feliz. Precisa de um retoque no corpo, já perfeito, para que possa se olhar no espelho e sorrir, completamente satisfeita. Eu fiquei triste..

Dan: And you left him, just like that?
Alice: It's the only way to leave. "I don't love you anymore. Goodbye."
Dan: Supposing you do still love them?
Alice: You don't leave.
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Passei por um puta salão de beleza esses dias. Estava escrito assim: "Beleza sem limites".

Beleza sem limites... como assim sem limites? O que não falta em um salão de beleza são limites. Aquilo ali é cheio de travas, é um cercado. Tem limite de cor, de qual tom você vai passar no cabelo, nos olhos, na boca, na cara. Tem limite de forma para o seu novo corte combinar com o seu rosto. Tem limite do quanto a chapinha consegue alisar e limite de clima para que ela se mantenha. Tem limite de quantos tons novos de vermelho a risqué lançou esse mês. Tem limite financeiro, de quantas hidratações você consegue pagar, de quantas vezes você consegue tirar a sobrancelha por ano, mas principalmente. Tem limite de tempo. Acima de tudo. Tem limite de tempo. Porque o tempo passa e vai tudo sendo levado em bora. A chapinha vai enrolar e o seu batom cor-de-boca-falso-natural vai sair, a sua sombra dourada vai borrar, seu rímel vai escorrer, o esmalte descascar. Tudo vai ralo abaixo. E no fim das contas você vai se olhar no espelho com aquela mesma cara de sempre. Limpa. Linda.

Essa beleza sim não tem limites. Ah essa sim. Essa consegue fazer com que você e mais cinco amigas sejam igualmente morenas, porém não tem uma pele que seja igual a outra. Essa beleza faz com que você e sua irmã gêmea mostrem suas expressões completamente diferentes. Não tem limites mesmo. Não tem uma pinta que se iguale a outra, uma sarda que você tem nas costas, uma ruga nascendo no cantinho do olho. Não tem nada que padronize, não tem nada que te cerque. É a beleza do seu cabelo liso que enrola nas pontas e que nunca, nunca vai ser igual ao da sua amiga que também é liso e também enrola nas pontas. Isso é porque não foi nada calculado. E não importa que você e mais meio mundo tenham o mesmo peso e a mesma altura. Nunca haverá dois corpos naturalmente iguais. Isso é não ter limites. E não importa quanto dinheiro você tenha no bolso, nem qual a humidade do ar. Você continua linda. E permanecerá. Porque essa beleza, não tem sequer limite de tempo. Ela não borra, não escorre por canto algum. Só se transforma. Em uma nova beleza, em um lugar diferente, com uma idade diferente, tal como a pessoa diferente que você será. Essa beleza sim, rompe qualquer fronteira.

Ao contrário do que te diz todo salão e, infelizmente, você acredita.

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O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada, também nada perguntou
Mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro dentro do meu coração.

Mas era um rio tão grande, tão grande que quase seria chamado de mar, isso claro, se a água não fosse tão doce. Tão doce que chegava a amargar. Como remédio. E na verdade, veja bem, era um remédio. Um remédio tarja preta. E remédio é droga, e vicia. É, era um vício aquele rio, como todo bom remédio.

E quantas vezes procurei me libertar dele. E quantas vezes procuraram me tirar de lá. Mas eu voltava. Bastava um minuto de solidão para eu regressar ao rio. E lá nadava por horas e horas sentindo seu gosto doce, tão doce que o resto do mundo parecia ser salgado. Ah esse rio. Era composto de saudade, de nostalgia, de passado e de alegria. Eu mergulhava, toda vez um pouco mais. No meu rio de tudo o que já foi. E foi bom.

Mas eu fui indo e fui tão fundo nesse rio que estava quase afogando. E eu iria, me afogar com gosto e com vontade. E teria uma morte doce, tão doce que chegaria a ser amarga. Mas eu ia.

Até que nadando, tão fundo nesse rio, submersa em minha própria melancolia, sentido desejos que eu nem sequer tenho mais, apareceu. Ah, mas apareceu algo que não deveria aparecer, não deveria estar ali. O ria era de saudade e solidão. Mas ele veio e me encontrou, no meio do meu rio de passado ele ousou entrar como que só para me lembrar que ele existia. Mas não foi só isso que aconteceu em mim. Era o presente.

Mas quem diria. Quando eu quase me afogava quem veio foi o presente. E eu mergulhada no antes parei para olhar o agora. E não só olhei, eu o vi. Eu o vi e percebi que um dia ele será meu antes também. E eu sentirei tanta falta desse antes quanto sinto agora do outro. Pois eu o amo. Amo o presente, tal como amei o passado. Amo de forma verdadeira e profunda. E ele é bom, o hoje é bom e me faz bem. Não o mesmo, mas um bem equivalente ao bem que um dia o ontem me fez.

E foi ele que me trouxe de volta para a margem, sem nem me puxar, nem nada, mas eu fui. Eu realmente fui. E deixei meu rio. Meu rio tão bom e tão doce. Pois o resto do mundo não é salgado, é doce também. E é tão doce que um dia também irá virar rio. E eu só posso voltar a ele e o sentir doce se eu o tiver vivido. Vivido como ele é. Intenso, forte, profundo. E o mais importante de tudo: É hoje. E eu o amo.


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